A complexidade
eclesial da Amazônia
Amazônia é um mundo complexo e, nela, a Igreja católica,
uma presença complexa, não homogênea, porque as questões locais são muito
diversificadas. Portanto, o nosso desafio é o nosso próprio desafio eclesial amazônico.
O processo de evangelização na Amazônia gerou modelos
eclesiais ao longo das fronteiras dos rios, marcadas pelos carismas dos
religiosos e religiosas aos quais foram confiados a evangelização. Rio Negro
aos carmelitas, jesuítas e depois aos salesianos; alto Solimões aos Capuchinhos
e assim por diante. Estas presenças missionárias foram ao longo do tempo
compactando uma religiosidade que, hoje, na sociedade liquida, se encontra na
encruzilhada, não digo uma crise, mas de alguns fenômenos de transição que
influenciam no perfil dos agentes da evangelização:
– Grande sincretismo religioso;
– O avanço do protestantismo de linha neopentecostal no
catolicismo;
– O recuo da Igreja nas periferias e uma presença de
conservação nos centros urbanos.
Esta transição ou sutil divisão influencia muitíssimo na
compreensão da identidade do cristão leigo e do modelo de Igreja que queremos,
consequentemente, no projeto de missão. Outro elemento de transição é a
nomeação de bispos de outras congregações ou diocesanos para estas prelazias e
dioceses na Amazônia; rompe-se assim uma hegemonia. Portanto, bispos,
religiosos e clero precisam manter os critérios das mutuas relações para
viabilizar a ação conjunta, mantendo o princípio de Calcedônia, ou seja, sem
misturar e sem separar; portanto, respeito, credibilidade e foco na
evangelização.
A influência do CV
II
Até o CV II, o leigo era aquele que não era: não era
ordenado, não era missionário, não era religioso consagrado, não era líder
comunitário. Após o CV, com o advento do modelo POVO DE DEUS, começamos a
superar a ideia do não leigo para o cristão leigo: o cristão leigo é um
discípulo missionário de Jesus Cristo, cuja missão está radicada no Batismo,
pelo qual todo e qualquer cristão é SACERDOTE, PROFETA E REI (LG, 33,2; CNBB,
cristãos leigos e leigas, doc. 105, n. 111.124.125). Papa Francisco, na carta
ao cardeal Marc Oullet sobre os leigos, dizia isto: “Nossa primeira e
fundamental consagração afunda suas raízes no nosso Batismo. Ninguém foi
batizado sacerdote nem bispo.
A Igreja não é uma elite de sacerdotes, consagrados, mas
formamos o Povo de Deus” (LG, 9) Então, o clericalismo forma uma sutil divisão
clero x leigos, religiosas x leigas, padres x diáconos, leigos x padres e
diáconos, tende ou, à luz do CV, deveria ter sido superado, mas o ranço desta
tensão ainda é muito presente. Diz ainda o papa “O clericalismo, longe de dar
impulso aos diversos contributos e propostas [inclusive a ministerialidade,
apaga pouco a pouco o fogo profético… ele esquece que a visibilidade e a
sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o Povo de Deus e não a poucos
iluminados” (LG, 9-14).
Os dons são do
mesmo Espírito
Portanto, a dialética está dentro de nós, de nossa
mentalidade, daí a necessária e urgente CONVERSÃO PASTORAL (João Paulo II, A
Igreja na América, n. 26-29), ou seja a conversão é, sobretudo “assumir o
estilo de Jesus Cristo: simplicidade, pobreza, disponibilidade, renuncia à
vantagens, é o modo do Bom Pastor” (n.28). Não haverá, portanto, abertura ao Espírito Santo, que suscita os
ministérios, sem conversão, pois o ES não se rege pelo Direito Canônico; e, é o
ES que cria e recria os ministérios segundo as necessidades do Povo de Deus. É
ele que fala a Igreja (Ap, 2,29; CNBB, cristãos leigos e leigas, doc. 105, n.
151.152).
Tenhamos presente, entretanto, que todo ministério é para
o serviço à missão e não para um bem pessoal. Requer humildade, abnegação
e doação de si mesmo. Quem assume como
privilégio e honra um ministério não entendeu o serviço ao Reino definitivo.
Ministério eclesial não é poder, mas capacidade de amar mais ao povo. Este
critério serve tanto para os ordenados como a não ordenados. Aplica-se bem a
expressão do papa Francisco também aos leigos e leigas: “renunciemos a
psicologia de príncipes” ou numa fala aos núncios (representante diplomático
permanente da Santa Sé) apostólicos: “quando alguém é eleito ao episcopado deve
entender que Deus pousou o olhar sobre ele”, dito aos cristãos leigos e leigas,
diria: quando um leigo ou leiga assume um ministério deve estar consciente de
que Deus pousou o olhar sobre ele.
Precisamos, portanto, ter aquela sensibilidade mística de
Santa Teresa de Calcutá, quando sentiu no seu interior o apelo de Jesus Cristo:
Tenho sede. Nosso povo tem sede da Palavra, da comunhão, da organização, da
evangelização, de crescer, ser nutrido. Não podemos, por conseguinte, imaginar
que somente nós clero teremos as respostas para todos os desafios da Amazônia,
pois nós somos o desafio. Precisamos sim de uma Igreja na Amazônia que siga um
programa de evangelização e não um quadro doutrinário (EG, 104).
Faz-se urgente duas atitudes que podem gerar ação,
segundo Francisco: discernimento e gradualidade. Eu me aproprio disto para a
realidade dos ministérios eclesiais, pois, como bem dizia Ulisses Guimarães:
“sem coragem, todos os valores sucumbem”, precisamos ter coragem profética para
discernir, pois “não devemos ter medo de mudar aquilo que antes foi necessário
como norma, mas hoje é anacrônico” (EG, 43); não esperar do magistério todas as
orientações e soluções, mas busca-las à luz dos contextos (AL, 200), e o
discernir supõe debate, análise a partir da vida, deixar-se guiar pelo ES,
decisão e ação (AL, 293). A gradualidade encontramos numa sensível tipologia
cristã atual:
– Pastoral ordinária: fieis que conservam a fé nas
comunidades e entre eles os jovens (EG, 14): precisam de ministros que formem
para a missionariedade (sair);
– Pastoral ocasional: batizados que não vivem em
coerência com o batismo recebidos e entre eles os jovens (EG 14): precisam de
ministros acolhedores que tenham a capacidade de atrair (ver);
– Pastoral de fronteira: pessoas que ainda não conhecem
Jesus Cristo e entre eles os jovens (EG, 14): precisam de ministros que atuem
nos “novos areópagos e novas periferias – novas tecnologias (chamar);
– Piedade popular e catequese: é urgente valorizar a
piedade popular com os elementos do Evangelho (EG, 122ss), sobretudo como meio
de formação continuada dos jovens e adultos: precisamos de ministros que saibam
valorizar a PP e evangeliza-la sem perder suas matrizes culturais;
– Metodologia evangelizadora: pregação (EG, 135. 145),
escuta (EG, 154), iniciação cristã (EG, 163ss), ação social (EG, 17ss),
linguagens juvenis: precisam de ministros que desenvolvam a comunicação direta;
A diversidade de
dons
Com esses dois elementos é possível atender aquilo que é
de direito do Povo de Deus nos centros urbanos e nos centros rurais, sem esperar,
diz Francisco “diretrizes gerais”, mas locais. Abre-se, então, um leque de
possíveis ministérios que passo a elencar inspirado em Atos 12,6ss: “Há
diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo”.
– Ministério do aconselhamento pastoral
– Ministério da penitencia e reconciliação ordinária
– Ministério das Exéquias
– Ministério da pregação que alimenta a fé
– Ministério da espiritualidade cristã
– Ministério das culturas juvenis
– Ministério da política
– Ministério da caridade ativa
– Ministério da Piedade Popular
– Ministério da dor e da cura
– Ministério de formador de lideranças
– Ministério de itinerância
– Ministério diaconal com maior liberdade de ação, mais
evangelizadores que burocráticos
Pe. João da Silva Mendonça Filho, sdb
II Encontro da Igreja na Amazônia
Belém do Pará, 15 a 17 de novembro de 2016
Fonte: Portal Kairós.
Baixe ainda:
2- Cartaz da CF 2017.
3- Resumo e estudo do texto base da Campanha da Fraternidade 2017. NOVO
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